O que é a planilha orçamentária de obra pública
A planilha orçamentária é o documento central de qualquer licitação de obras e serviços de engenharia (concorrência, RDC, diálogo competitivo). Diferente da proposta comercial de bens e serviços comuns — onde você informa preço e prazo —, na obra pública a lei exige que a empresa demonstre como chegou ao preço: os custos diretos de cada serviço, o BDI aplicado, a composição de cada custo unitário e o cronograma de desembolso da obra.
Essa exigência nasce da Lei nº 8.666/93 e, mais recentemente, da Lei nº 14.133/21 (Nova Lei de Licitações), que mantém a necessidade de orçamento detalhado como elemento essencial da proposta. O objetivo é dar ao órgão público condições de avaliar se o preço ofertado é compatível com os custos de mercado — e proteger a Administração de propostas irrisórias ou superfaturadas.
Na prática, a planilha orçamentária completa de uma obra tem cinco componentes que trabalham juntos:
- Planilha principal: lista de todos os serviços (itens), com unidade, quantidade, custo unitário sem BDI, BDI aplicado e preço final;
- Planilha de composição do BDI: a memória de cálculo de cada componente do BDI (administração, lucro, tributos, riscos etc.);
- Composições de custos unitários (CPU): o detalhamento dos insumos (material, mão de obra, equipamento) que formam o custo de cada serviço;
- Cronograma físico-financeiro: quanto será executado (e faturado) a cada mês da obra;
- Referências de preços: os códigos e fontes de cada item (SINAPI, SICRO, ORSE, tabela própria), com a data base usada.
O que o edital de obra exige na proposta
Antes de montar qualquer planilha, leia no edital a seção "Da proposta" (geralmente nos anexos, junto do modelo exigido). A maioria dos editais de obra exige:
- Planilha de custos unitários com todos os serviços quantificados no projeto executivo/quantitativo;
- BDI detalhado componente a componente (a fórmula do TCU, que veremos adiante);
- Cronograma físico-financeiro compatível com o prazo de execução;
- Data base dos preços e referencial adotado (SINAPI/SICRO);
- Declaração de que os preços dos insumos são compatíveis com os referenciais oficiais na data base;
- Assinatura do responsável técnico (engenheiro + ART) na maioria das obras.
Como montar a planilha passo a passo
BDI: o coração da planilha
O BDI (Benefícios e Despesas Indiretas) é o percentual aplicado sobre o custo direto para cobrir tudo que não é insumo da obra: administração central, tributos, seguro, garantias, despesas financeiras e o lucro da empresa.
Desde o Acórdão TCU nº 2.622/2013, o tribunal padronizou a fórmula de cálculo — e a maioria dos editais passou a exigir que a planilha de composição do BDI siga essa metodologia:
Onde: AC = administração central; S = seguros; G = garantias; DF = despesas financeiras; L = lucro; R = riscos/imprevistos; T = tributos (ISS + PIS + COFINS, e CPRB no regime desonerado).
A tabela típica de componentes, com as faixas usualmente aceitas em editais:
| Componente | Faixa típica | O que cobre |
|---|---|---|
| Administração Central (AC) | 3% a 6% | Estrutura administrativa da sede, RH, contabilidade |
| Seguros (S) | 0,3% a 0,7% | Seguro de imóveis e equipamentos |
| Garantias (G) | 1% a 2% | Seguro-garantia da proposta e do contrato |
| Despesas Financeiras (DF) | 0,5% a 2% | Custo do capital de giro entre medições |
| Lucro (L) | 5% a 12% | Remuneração do capital da empresa |
| Riscos (R) | 1% a 3% | Imprevistos e contingências |
| Tributos (T) | ISS 2–5% + PIS 0,65% + COFINS 3% | Carga tributária sobre o faturamento |
| CPRB (desonerado) | 4,5% | Substitui a contribuição patronal no regime desonerado |
Exemplo numérico real
Suponha: AC = 5%, S = 0,5%, G = 1%, DF = 1%, L = 8%, R = 1% e tributos T = 8,65% (ISS 5% + PIS 0,65% + COFINS 3%):
- Numerador: (1 + 0,05) × (1 + 0,005) × (1 + 0,01) = 1,0653
- Denominador: 1 − (0,01 + 0,08 + 0,01 + 0,0865) = 0,8135
- BDI: (1,0653 ÷ 0,8135 − 1) × 100 = 30,95%
Se a obra for no regime desonerado, soma-se a CPRB (4,5%) aos tributos: T = 13,15%, e o BDI sobe para cerca de 38,85% — sempre mantendo a mesma margem líquida, pois a desoneração tira os encargos da mão de obra da CPU.
Composição de custo unitário (CPU)
A CPU é o "raio-X" de cada serviço da planilha. Para um serviço de impermeabilização de laje, por exemplo, a CPU lista: a manta asfáltica (m² e preço unitário), o primer, a mão de obra (hora de impermeabilizador + encargos sociais) e o equipamento (uso de maçarico). O somatório de tudo é o custo unitário sem BDI daquele serviço.
Regras de ouro da CPU:
- Cada insumo tem tipo (material, mão de obra, equipamento), unidade, coeficiente (consumo por unidade de serviço) e preço unitário;
- Preços vêm do SINAPI (construção civil), SICRO (infraestrutura rodoviária) ou tabelas regionais (ORSE, SETE, SUDECAP);
- A mão de obra recebe encargos sociais (aponte o percentual usado);
- Se usar preço próprio (pesquisa de mercado), guarde a comprovação — o órgão pode pedir;
- O custo unitário da CPU precisa bater com o custo unitário da planilha principal. Divergência aqui é causa clássica de diligência e desclassificação.
Cronograma físico-financeiro
O cronograma mostra, mês a mês, o percentual físico executado e o valor financeiro correspondente, com acumulados. Ele orienta o planejamento do contrato e é a base das medições.
Três validações que o órgão faz de imediato:
- Soma dos valores mensais = total da planilha (exatamente, centavo a centavo);
- Soma dos percentuais físicos = 100%;
- Número de meses = prazo de execução do edital.
| Mês | % físico | Valor do mês | % acumulado | Acumulado |
|---|---|---|---|---|
| Mar/2026 | 20,00% | R$ 86.100,00 | 20,0% | R$ 86.100,00 |
| Abr/2026 | 30,00% | R$ 129.150,00 | 50,0% | R$ 215.250,00 |
| Mai/2026 | 30,00% | R$ 129.150,00 | 80,0% | R$ 344.400,00 |
| Jun/2026 | 20,00% | R$ 86.100,00 | 100,0% | R$ 430.500,00 |
| Total | 100% | R$ 430.500,00 | — | — |
Erros que desclassificam a planilha de obra
- BDI "cheio" sem detalhamento — desclassificação direta em editais que exigem composição;
- Total da planilha diferente do valor declarado na proposta — incompatibilidade fatal;
- Cronograma que não fecha com o total — erro de centavos derruba a planilha inteira;
- Preços unitários diferentes para o mesmo serviço com a mesma descrição — irregularidade apontada pelo TCU;
- Quantidade diferente do edital — a proposta deve cobrir o quantitativo integral;
- Falta de data base ou referencial de preços — impossibilita a análise de compatibilidade;
- CPU inconsistente com o custo unitário da planilha — diligência e possível desclassificação;
- Ausência de ART/assinatura do responsável técnico — exigência da maioria das obras.
Checklist final da planilha
Montar essa planilha manualmente no Excel leva horas — e cada erro de fórmula é uma porta aberta para a desclassificação. O LicitaFree agora tem um módulo dedicado de Obras Públicas: você informa os componentes do BDI e o sistema calcula automaticamente pela fórmula do TCU, monta os itens com CPU e encargos, gera o cronograma físico-financeiro fechando centavo a centavo e exporta tudo em PDF profissional e Excel — com validação de edital em tempo real (descrições repetidas com preços diferentes, cronograma divergente, tudo isso é apontado antes de você salvar).
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